QUANDO A RAIVA QUER DIZER PAIXÃO

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Imagine que, na foto acima, o cara é o protagonista deste texto. Mas, neste caso, ele está com outra garota que não, não sou eu. Deste ângulo, eu estaria como quem fotografou a imagem: de longe, olhando e achando tudo isso uma tremenda besteira. Na real, eu jamais teria feito uma foto dessas. Teria apenas passado reto e pensando comigo mesma: lá vai ele. Zzzzzz…

Eu sempre o achei um pouco convencido. Eu disse um pouco? Não, era bem mais do que isso. Bastante convencido, cheio de si, nada modesto, vaidoso até o fim, metido e presunçoso. Ufa. Era tudo isso. Sabe aquele tipo de pessoa que tenta ser legal com todo mundo, procura participar de cada uma das conversas e fala coisas fofas para todas – absolutamente todas – as meninas? Ele fazia bem este perfil. Por isso, assim que o vi pela primeira vez já me bateu uma preguiça. Aaai, ai… “Vou é ficar bem longe”, foi o que eu pensei. E planejei. Fiquei.

Esquivava seus olhares, respondia com rispidez aos elogios. Encurtava todas as conversas e passava longe de esboçar um sorriso. Se ele virava e me mostrava toda a sua arcada dentária brilhante (meus parabéns pelos 32 dentes, uau, pensei que apenas eu tinha esse número!), só o que encontrava era minha boca,fechada. Meus dentes vão muito bem sim, obrigada, mas estão aqui quietinhos no escuro e eu que não vou mostrá-los para você. Assista agora mais um episódio da série: “Lábios Fechados Com Meu Batom Matte Sem Sorriso”.

Valeu, até a próxima.

Assim, de graça. Porque achava melhor. E foi essa versão de mim que ele conheceu até então. A garota dura, ríspida, trocando em miúdos: curta e grossa, sim senhor. Sem o menor dos contatos, se esquivando de sua presença como se fosse aqueles obstáculos em provas de hipismo. Eu era o cavalo. Ele, o percurso. E, de vez em quando, eu ainda soltava uns coices. Mas, hm… por que, mesmo?

Com toda a minha sinceridade, confesso: foi um certo tipo de preconceito. Não sei se era uma vontade minha de ser a diferentona, mas acho que, na realidade, eu só queria provar para ele – na verdade, para mim mesma – aquele velho truque do “comigo, não”, como quem diz “você convence a todos – mas não me convence”. Se o mundo inteiro estava caindo deslumbrado com o seu jeito de ser, suas piadinhas e seus elogios vazios a qualquer um e qualquer coisa, eu não estava. Vestida da melhor armadura contra chamegos e confetes, os terríveis, acho agora que me comportei assim, de um jeito tão duro, apenas porque… queria ser notada.

Pois é, tem gente que apenas irrita e simplesmente queremos vê-los longe, mas também tem gente que realmente…. conquista. A realidade pode ser meio tensa e conseguir reconhecer um comportamento, digamos assim, estranho seu, pode não ser um mar de rosas. A sensação é mais como um balde de água fria.

Com o tempo, o encantamento geral começou a passar um pouquinho. Uma atitude dele, antes tão bacana, passou a virar rotina para todas as meninas que já não se deslumbravam tanto assim. Minha reação foi um pouco egoísta, do tipo “ufa migas, acordaram, hein?”, mas foi bem neste momento que euprovei deste mesmo veneno que julguei a todas por terem tomado. Não desceu muito redondo, não.

Não sei se foi quando o vi dando play naquela música que eu adorava, cantarolando a letra fofa e a tirando no violão, a percepção de que ele era – realmente – um cara bem inteligente… ou se foi só a mosquinha da atração que me picou. Fato é que, despido daquele mar de gente o rodeando, passei a ver a graça nunca antes vista. O mais engraçado é que eu comecei a olhá-lo por dentro. Ele até podia ser um cara bonito, mas, quando pensava nele, via primeiro todas as suas “qualidades” antes de enxergar o cabelo despenteado. Vi então a sua graça, consegui ler sua alma, compreendi o seu jeito e senti uma vontade imensa de desfrutar de sua companhia.

Relutei. Como era possível que isso estivesse acontecendo comigo? Mas os inúmeros pensamentos e planos – ai, que tola! – antes de dormir provavam. As mãos suadas quando o encontrava, o coração batendo mais rápido, a vontade de conversar e mostrar que, sim, eu era uma pessoa legal.

Me apaixonei.

Provei do ditado que diz que a raiva anda de mãos dadas com a paixão. Não sei se sempre estiveram juntas, mas foi assim que encontrei o amor: bem ao lado da antipatia, pedindo um cantinho qualquer pra sentar.

Não teve muito jeito, cedi o lugar.

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