NÃO ESTAVA NA HORA: UM PROBLEMA DE PONTEIROS

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Foto: Reprodução

Desculpe, mas vou ter que começar falando dele. O bendito, ou, bom, depende do seu ponto de vista,maldito até certo ponto, vai lá saber? Mas, sim, o tal destino. E não é que ele aprontou novamente?

Pensei que estava tudo certo. Desta vez, ah, eu sabia que merecia a paz e o friozinho na barriga… Tão, tão bom. Meu sorriso estampado na cara durante nossos dias coloridos provava que as coisas andavam bem. Era uma rotina de encontros e desencontros, abraços longos e demorados, beijos afoitos, conversas empolgantes e mensagens apaixonadas a qualquer momento do dia:

– Oi, linda!

– Oooi! 🙂

Só que começaram a surgir algumas pedras no meio do caminho… Do nada. Era como se tivesse alguém, muito chato e ranzinza, no topo de uma colina, jogando pedra por pedra, sem se preocupar se haveriam cabeças desprotegidas passeando tranquilamente lá embaixo.

Eu não queria acreditar, sabe? É um pouco complicado encarar que, às vezes, em um conto de fadas, aquele ratinho que aparece no canto da mesa não está lá para cantar uma música animada, te ajudar a confeccionar o seu vestido, ir mais rápido para o baile ou ouvir as suas lamúrias, animado, dando conselhos com uma voz fofinha e terminando com um beijo na ponta do seu nariz… Ah, se fosse assim! Só que, muitas vezes, tudo o que ele quer é roubar o seu queijo. E fugir, entrando em um buraquinho na parede, como se estivesse sendo perseguido cruelmente.

Não é tão bonito na prática.

O que fazer? No começo – lembrando que, voltando, ainda convivemos com aquele maluco no topo da colina -, a gente até se incomodou, mas sabíamos dar um jeito de contornar os problemas, acordar no outro dia como se nada tivesse acontecido e procurar acertar os nossos ponteiros.

– Vamos esquecer daquilo? Estou com saudades…

– Eu também. ❤

Não sabíamos, mas o problema estava justamente com eles: os ponteiros.

Não eram as pedras. Eram apenas os ponteiros.

Quando as pedras maiores começaram a cair, percebemos: tudo acontecia porque eu olhava a vida sob a perspectiva de quem acabara de acordar e, você, se colocava longe, de forma ágil, como o corredor nato que já estava chegando ao fim do dia. A gente até invertia os papéis, mas não pudemos deixar de perceber que, se para você tudo parecia escuro como a noite (quem é que enxergaria a pedra vindo, ali, no breu?), para mim ainda era sol de meio-dia (sabe, quando está calor demais para fazer qualquer coisa?).

Não dava pra simplesmente ignorar o fato de que andávamos fugindo das pancadas, nos esquivando. A nossa união começava a trilhar uma rotina conturbada que, no fim de contas, não estava sendo boa para nenhum de nós dois.

Sabemos que colocar o amor, este sentimento tão lindo e sublime, a cargo de tudo, como se ele pudesse criar um bloqueio especial e nos proteger de cada um dos perigos, não funciona muito bem. O amor é forte, mas não consegue, sozinho, criar uma proteção de aço. É leve e transparente: o que tiver que passar por ele, passará. Sua função, bem realista, existe apenas na magia da coisa, em toda a beleza que ele nos inspira e traz. De resto, o amor não pode resolver os problemas. Ele até acredita na resolução das coisas, mas assiste de longe enquanto você se vira sozinho.

É claro, torcendo sempre para que fique tudo bem.

Só que, desta vez, não ficou.

Por isso, após tantas tentativas em vão, estava decidido: era melhor abandonar o barco, antes que ele de fato afundasse. Os meus ponteiros marcavam o tempo de acordo com as horas de Sydney e os seus estavam mais para Buenos Aires. Não é fácil – e torna-se ainda pior quando percebemos que o melhor é dar adeus. Dói, mas sempre sobra aquela esperança, pequena, mas um pouco confiante de que, um dia, talvez, nos encontremos num aeroporto da vida.

Leu bem? Num aeroporto, os dois sob a mesma hora e longe de qualquer colina.

Sem pedras. Os mesmos ponteiros.

Eu acredito, e você?

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