CAÍMOS OS DOIS; SÓ EU ME MACHUQUEI

Foto: Lukas Z Wierzbowski
Foto: Lukasz Wierzbowski

Eu me pego lembrando dos momentos bons e me dá aquele aperto na garganta. Parece que a cena está se repetindo aqui de novo, agora, do meu lado, como se tivesse acabado de acontecer. Mas já faz algum tempo…

Eu pensei que nunca iria gostar de alguém dessa forma. Só que as coisas vão acontecendo e, quando você vê, tudo o que há é amor. Aquela pessoa de quem você nunca imaginou gostar – bem diferente da que habitava seus sonhos e planos de romance – vira o rosto que você queria ver todos os dias ao acordar. Se transforma nas ligações telefônicas intermináveis à noitinha, nos planos de viagens incríveis, com mil roteiros a se desbravar, nas mensagens bobas durante a tarde e, finalmente, na concretização do “nós dois juntos”. A melhor rotina do mundo.

Como é ruim poder lembrar de tudo. Porque, junto à lembrança, vem aquela pontada de certeza de que isso tudo não vai acontecer novamente. Pode até ser em outra ocasião, mas com outra pessoa.

E não pense que me esqueci da parte ruim. Ela também vem à tona na minha mente, mas, olha que coisa, simplesmente não parece mais tão ruim assim. Acho que a saudade faz a gente suavizar as cicatrizes. Porque aquilo que parecia um enrosco tremendo, agora, tem a cara de um simples nó dentro da minha própria mente – e, de repente, está tudo bem.

Mas não está.

Porque o que foi dito, ficou. E a minha surpresa vem no efeito que ele causou no meu depois.

Tudo mudou por conta das simples palavras que foram jogadas de um lado ao outro, como crianças brincando de bola em cima de um muro. Sem se darem conta do que a singela brincadeira poderia causar ou, ainda pior, de que elas corriam o risco cair dali.

Caímos os dois.

E foi sem aviso, de cara, num mundo em que eu e você não existimos mais. Nossas piadas, nossas manias. Não há a sua letra inicial junto com a minha e, disso tudo, só restaram sonhos e planos que, agora, representam tempo perdido.

E eu percebo que, da nossa queda, parece que só eu me machuquei. É estranho olhar para o lado e te ver normal, arrumando as roupas e com as mãos limpas, sem nenhum arranhãozinho, enquanto me levanto aos poucos, toda bagunçada e com os joelho esfolados.

O que me consola é saber que, se você vivia em meu coração, nesta queda ele se quebrou. Isso quer dizer que, mesmo que seja aos pouquinhos, você sairá dele, como a água que foge do copo virado.

Hoje, ainda tenho saudade. Mas é porque a sua lembrança continua escorrendo aqui dentro, relutando para ir embora de vez. Mas a gravidade está aí e o coração ainda está virado: daqui a pouco tudo ficará vazio de novo, exatamente do jeito que era antes de você chegar.

NÃO ESTAVA NA HORA: UM PROBLEMA DE PONTEIROS

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Foto: Reprodução

Desculpe, mas vou ter que começar falando dele. O bendito, ou, bom, depende do seu ponto de vista,maldito até certo ponto, vai lá saber? Mas, sim, o tal destino. E não é que ele aprontou novamente?

Pensei que estava tudo certo. Desta vez, ah, eu sabia que merecia a paz e o friozinho na barriga… Tão, tão bom. Meu sorriso estampado na cara durante nossos dias coloridos provava que as coisas andavam bem. Era uma rotina de encontros e desencontros, abraços longos e demorados, beijos afoitos, conversas empolgantes e mensagens apaixonadas a qualquer momento do dia:

– Oi, linda!

– Oooi! 🙂

Só que começaram a surgir algumas pedras no meio do caminho… Do nada. Era como se tivesse alguém, muito chato e ranzinza, no topo de uma colina, jogando pedra por pedra, sem se preocupar se haveriam cabeças desprotegidas passeando tranquilamente lá embaixo.

Eu não queria acreditar, sabe? É um pouco complicado encarar que, às vezes, em um conto de fadas, aquele ratinho que aparece no canto da mesa não está lá para cantar uma música animada, te ajudar a confeccionar o seu vestido, ir mais rápido para o baile ou ouvir as suas lamúrias, animado, dando conselhos com uma voz fofinha e terminando com um beijo na ponta do seu nariz… Ah, se fosse assim! Só que, muitas vezes, tudo o que ele quer é roubar o seu queijo. E fugir, entrando em um buraquinho na parede, como se estivesse sendo perseguido cruelmente.

Não é tão bonito na prática.

O que fazer? No começo – lembrando que, voltando, ainda convivemos com aquele maluco no topo da colina -, a gente até se incomodou, mas sabíamos dar um jeito de contornar os problemas, acordar no outro dia como se nada tivesse acontecido e procurar acertar os nossos ponteiros.

– Vamos esquecer daquilo? Estou com saudades…

– Eu também. ❤

Não sabíamos, mas o problema estava justamente com eles: os ponteiros.

Não eram as pedras. Eram apenas os ponteiros.

Quando as pedras maiores começaram a cair, percebemos: tudo acontecia porque eu olhava a vida sob a perspectiva de quem acabara de acordar e, você, se colocava longe, de forma ágil, como o corredor nato que já estava chegando ao fim do dia. A gente até invertia os papéis, mas não pudemos deixar de perceber que, se para você tudo parecia escuro como a noite (quem é que enxergaria a pedra vindo, ali, no breu?), para mim ainda era sol de meio-dia (sabe, quando está calor demais para fazer qualquer coisa?).

Não dava pra simplesmente ignorar o fato de que andávamos fugindo das pancadas, nos esquivando. A nossa união começava a trilhar uma rotina conturbada que, no fim de contas, não estava sendo boa para nenhum de nós dois.

Sabemos que colocar o amor, este sentimento tão lindo e sublime, a cargo de tudo, como se ele pudesse criar um bloqueio especial e nos proteger de cada um dos perigos, não funciona muito bem. O amor é forte, mas não consegue, sozinho, criar uma proteção de aço. É leve e transparente: o que tiver que passar por ele, passará. Sua função, bem realista, existe apenas na magia da coisa, em toda a beleza que ele nos inspira e traz. De resto, o amor não pode resolver os problemas. Ele até acredita na resolução das coisas, mas assiste de longe enquanto você se vira sozinho.

É claro, torcendo sempre para que fique tudo bem.

Só que, desta vez, não ficou.

Por isso, após tantas tentativas em vão, estava decidido: era melhor abandonar o barco, antes que ele de fato afundasse. Os meus ponteiros marcavam o tempo de acordo com as horas de Sydney e os seus estavam mais para Buenos Aires. Não é fácil – e torna-se ainda pior quando percebemos que o melhor é dar adeus. Dói, mas sempre sobra aquela esperança, pequena, mas um pouco confiante de que, um dia, talvez, nos encontremos num aeroporto da vida.

Leu bem? Num aeroporto, os dois sob a mesma hora e longe de qualquer colina.

Sem pedras. Os mesmos ponteiros.

Eu acredito, e você?

CORAÇÃO, CURIOSIDADE, VONTADE

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Reprodução/Tumblr

O meu coração aperta. Toda vez. Toda santa vez. É só a minha mente esbarrar em você que ele se contrai, todo esquisito, sem saber como lidar. Calafrio. Suspiro.

Não te conheço bem, e isso é ruim. Mas cada uma das partes que pude conhecer são tão lindas, tão boas, tão encantadoras. Sei que você já viveu muito, já amou outras garotas por aí, já se aventurou em ruas, avenidas e estradas. Tudo bem, o mesmo aconteceu comigo. O nosso passado fez de nós o que somos hoje – e eu gosto da pessoa que você é.

Queria que você soubesse que está sendo difícil lidar com isso tudo. Não sei bem como agir quando estou perto de você, fico sem graça, não quero que dê na cara, acho que estou pagando de louca. Ao mesmo tempo, vamos lá, volte a fita e inverta as últimas frases: quando estou perto de você, fico à vontade, quero que você perceba, me sinto livre. Bipolaridade. Tudo consegue acontecer ao mesmo tempo. E olha que eu nem estou apaixonada.

Não estou escrevendo isso pra passar uma mensagem. Não, este link não vai aparecer acidentalmente na sua timeline. Você não lerá este texto franzindo as sobrancelhas e pensando “será que é pra mim?”. Nada disso vai acontecer, esqueça. A única intenção aqui é aliviar a mim mesma. Só quero me encontrar nas palavras, deixar que elas me traduzam e tirem de mim pelo menos um terço de toda essa fervura interna que está me deixando doida. Fora do eixo.

Minha autoestima sabotadora morre de medo de você me achar uma surtada. “Ela? Nem pensar. Não faz o meu tipo, é só minha amiga. Não dá.” Que saco. Sempre foi assim. Nunca achei que era boa o suficiente. Muitas vezes posso ter sido, mas deixei de saber. Nunca vou descobrir.

E eu fico aqui confabulando: já pensou se você também sente o coração e a cabeça formigando de curiosidade e vontade quando estou por perto? Seria bom. Para ser bem sincera, não é impossível. Você não é inalcançável, distante, alvo de um sentimento platônico. A gente combina, se dá bem, dá certo. Mas sei lá. Melhor não.

Na dúvida, vê se fica por perto. Por favor. É bom ver o seu sorriso e ouvir a sua risada, me faz bem. Você é legal demais. Todo mundo te adora. Sabia? Mesmo que você tenha quarenta mil defeitos bizarros e manias insuportáveis que um dia virei a conhecer, não importa. O que é bom transpira mais alto e qualquer um consegue ver.

Siga sendo você. De longe ou de perto, eu aplaudo e admiro. Prometo.

AMOR DE LITERATURA

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Reprodução/Tumblr

Página 4. Eu nem sabia o que viria. Meu plano não era encontrar alguém tão cedo – até porque a última experiência tinha demorado para sair da minha cabeça – e foi dessa forma que segui minha rotina, sem me preocupar muito com essas coisas. Minhas obras favoritas não falam a respeito de um grande amor. Confesso, os meus livros de ficção até fazem surgir um coração acelerado ou outro, mas não é a paixão a grande força motriz, aquela que muda o rumo das coisas.

Aliás, tudo acontecia praticamente da mesma forma nos únicos livros de romance que li. Não gosto muito dessas coisas previsíveis!

Em todos os dias úteis, religiosamente, passo as tardes na biblioteca municipal para estudar e, depois, ler dois capítulos de um livro de fantasia qualquer. No início, eu tinha um pouco de vergonha, preferia a calmaria do meu quarto e o silêncio de minhas paredes com luzes de Natal (ué, pra que vou comprar se já tenho em casa?).

Mas, um dia, passei por lá e, por pura curiosidade, decidi ficar. Gostei. Percebi que a biblioteca era o ambiente perfeito! Sabe a expressão “peixe fora d’água”? Comigo o inverso aconteceu. Me senti totalmente parte daquele lugar, era o aquário certo para mim. O conhecimento transbordava!

O local, é claro, não tem o maior dos acervos, mas possui uma lista extensa de obras que me ajudam nos estudos e, além disso, a emoção de poder ler dois capítulos de um livro que eu nem imaginaria comprar (essas decisões geralmente são bem calculadas) me traz surpresas inesperadas. É divertido!

Página 182. Sério, como eu não notei antes? Dessa vez, trouxe a Maria Luiza para estudar comigo e fazer uma carteirinha para utilizar a biblioteca eventualmente. Sim, foi com muito esforço: eu disse que não desistiria enquanto ela pelo menos não experimentasse estudar aqui um dia.

Não funcionou muito: acho que, no final das contas, ela nem curtiu. Mas parece que as coisas sempre acontecem por um motivo…

Enquanto estudávamos o módulo dois de geografia, ela me perguntou se eu não tinha notado o menino de cabelos enrolados que, segundo ela, não havia tirado os olhos de mim enquanto procurávamos pela matéria. Olhei para ele e me veio uma vaga lembrança. Talvez eu já tivesse visto o garoto por ali, nas mesas, mas nunca reparei muito bem. Fato era que, agora, ele não estava mais nem aí: os olhos não desgrudavam das páginas. Absorto e concentrado. Será?

Página 228. E eu, que não gosto dos clichês, creio que minha história está se desenrolando tal como um deles. Fiz o teste e concluí: todas as vezes que vou escolher as obras nas estantes, ele me olha. Corro os olhos para o lado de forma bem rápida e quase não dá tempo de ele desviar. Nossos olhares se encontram e eu percebo que estou praticamente no meio dos capítulos de um livro apaixonado.

E não é só a aparência, os olhos e os sinais que me encantam nele. Às terças e quintas, o meu garoto chega mais tarde e consigo ver o último título que ele deixou na prateleira de devolução. A minha maior surpresa foi que, em todas essas vezes, encontrei um livro diferente por lá – quase sempre acompanhado de uma obra sobre mecânica, já que aparentemente ele estuda o assunto em questão. Ou seja: ele também escolhe qualquer obra aleatória para ler ao final dos estudos. Assim como eu.

Página 241. Já faz um tempo que começamos a conversar. Eu sei, devia ter tomado alguma iniciativa, mas simplesmente continuei tocando a rotina para frente, como quem aproveita os momentos de encanto do início do livro. Eles são tão bons!

Mas, melhor do que eles, são as nossas conversas. Nunca achei que encontraria uma alma tão densa, intensa, mergulhada em assuntos fascinantes – que me fazem adiar por uns momentinhos o meu eterno e grande amor, a literatura.

E assim confirmei minha suspeita de que ele partilhava do mesmo ritual que eu, aquele da escolha aleatória ao fim da leitura obrigatória. O nome disso pode ser coincidência, mas, no nível sentimental em que estou, me permito dar lugar ao meu primeiro clichê: prefiro acreditar que é um tipo de mágica.

Página 312. Acho que estamos naquela parte do livro em que a reviravolta acontece e a protagonista passa por algo inesperado e precisa resolver o problema da melhor forma. Sei o seu nome, suas paixões, seus títulos favoritos, fatos que ele me ensinou sobre assuntos variados e conheço também todas as suas feições de interesse, que surgem quando falo sobre mim.

O grande problema é que nossa última conversa aconteceu há várias semanas. Ele nunca mais voltou. Teve que mudar de cidade com a família. Foi com uma conversa demorada – durou uma tarde inteira – que tivemos a nossa despedida. Quando o sol foi dormir, dissemos adeus e seguimos nossos caminhos.

Página 399. A verdade é que não vou fazer a personagem que fica se lamentando pelos cantos, chorando pelo amor perdido. Sei reconhecer que foi bom enquanto durou – mesmo que nunca tenha se concretizado de fato – e valorizo os momentos pelos quais passamos juntos. Também não vou deixar de frequentar o lugar, sabe? Por mais que agora a biblioteca acenda em mim uma memória esquisita – feliz e triste -, continuo por aqui, com os mesmos hábitos e livros que tanto me fazem feliz.

Página 405. E eu que pensei que meu breve romance tinha terminado na última página das trezentas… Me enganei. Hoje, enquanto escolhia os livros, como de costume, senti uma presença ao meu lado. Era ele.

Não houve conversa, pedido de desculpas, lamentações, questões ou demais palavras. Nos olhamos e sentimos a reciprocidade da urgência que sentíamos em fazer o que queríamos fazer. Em meio a tantos livros, demos o beijo que fechou de forma linda o ciclo iniciado como em livros românticos.

Não havia necessidade de explicações. Eu estava, enfim, vivendo o meu amor de literatura.

E você quem me cobre de amor.

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Você roubou o meu cobertor e eu acordei no meio da noite, com frio. O tempo nem estava tão gelado assim, mas sou do tipo de pessoa que não dispensa um edredom nem quando o tempo está ameno. Olhei para o lado e, antes de puxar um ladinho da coberta para mim, vi você dormindo, quietinho, perdido em algum sonho bom (eu daria um doce pra saber qual era).

Despertei totalmente do meu sono e os pensamentos foram vindo quase instantaneamente. Tem gente que chama de sorte, mas acredito que deve ter alguma palavra ainda não inventada que represente isso. Quando eu iria imaginar que daria tão certo assim, você e eu?

Não me importo de dormir sozinha, aliás, passo a maior parte da semana apenas na companhia do abajur da mesinha de cabeceira e dos últimos Snaps da noite até o sono chegar. Mas aqui, ao seu lado, o mundo parece realmente mais interessante e um pouquinho mais poético. Me dá vontade de levantar e ir até a janela, deixar a brisa entrar (ué, quem é que estava querendo se cobrir há poucos instantes?), olhar para as estrelas e ver se consigo encontrar algum significado oculto por trás das constelações.

Fico querendo colocar uma das minhas músicas favoritas pra tocar e embalar o momento, mas não quero te acordar e tampouco sei onde está o fone. Olho para cima e, na escuridão do quarto, consigo visualizar o seu riso frouxo. Tão bom! No momento você nem está sorrindo, mas a coisa é mesmo tão louca que posso vivenciar novamente cada momento bonito pelo qual já passamos sempre que você está por perto.

Observo sua respiração e começo a me achar meio maluca. É, está na hora de voltar a dormir. Tudo aconteceu tão rapidamente que nem me dei conta de que quase quarenta minutos se passaram durante meus devaneios. Dou risada de mim mesma, me enchendo por completo de todo aquele sentimento de paz (que só você consegue me trazer).

Sabe, não importa muito o cobertor que você me roubou.
Quem é que precisa de edredom quando você me cobre assim, de amor?

Oque eu queria te dizer

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Queria te dizer que entendo. Eu sei, a minha reação explosiva fez parecer totalmente o contrário. Mas você podia dar um desconto: não é sempre que as palavras certas surgem na hora adequada. Com o acréscimo do nervosismo, as coisas pioram – e muito. Às vezes penso rosa, mas tudo que sai é laranja. Pode ser bem próximo, mas ainda não é o que eu queria ter dito.

Eu e minha mania de esperar sempre o melhor das pessoas. Eu sei, confundi tudo mais uma vez. A gente nunca vai imaginar que as coisas vão partir para um rumo tão diferente daquele que tínhamos planejado.

Queria te falar que sinto muito. E eu sinto, mesmo. As borboletas que, antes, voavam como loucas por dentro do meu corpo, agora parecem ter sido beijadas pelo gelo. Frias, já congelaram lá dentro e voam lentas, deixando tudo solidificado. É uma pena que as coisas tenham acontecido dessa forma. É uma pena que o gosto dos próximos dias não tenha um sabor tão doce quanto aquele que senti antes. Como te mostrar os tantos planos bonitos que eu tinha para nós? Eu queria te mostrar…

Se o mundo para você era de uma cor, para mim era de outra. Eu enxerguei tudo muito mais bonito e vívido, construindo pontes que jamais seriam levadas pelo mar. Do outro lado, estava você. Como não percebi que todos aqueles castelos eram de areia? Você já sabia que eles estavam sendo erguidos assim? Tão vulneráveis, completamente desprotegidos e frágeis. É claro que caíram.

É por isso que eu quis me expressar, só para tentar amarrar aquilo que não foi amarrado direito. Para provar o valor de tudo que você desvalorizou. Dizer que entendi, falar o quanto sinto e tentar te mostrar o que você perdeu. Mas agora já não tem mais jeito: para mim, foi você que não me entendeu.

Completando

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Quando eu percebo que você acabou pegando um jeito meu, acho graça. No momento em que te conheci, nunca imaginei que você acabaria reproduzindo características tão minhas. Sabe, hoje é fácil me ver em você. A gente se completa tão bem que, várias vezes, você acaba terminando uma frase que eu mal comecei. Também não preciso explicar um olhar demorado – você sabe direitinho o que ele significa.

Eu sei que isso é normal. Nossas ações, com o tempo, acabam ficando um pouquinho previsíveis, não é? Mas o que a gente tem é bem mais do que esse feeling da lembrança de fatos anteriores. A conexão é forte e confesso que tudo aquilo que sempre sonhei em encontrar num par, eu achei. Não acreditava que poderia haver um elo tão intenso como este que nos liga.

E até engraçado pensar que, no meu primeiro aniversário, você errou no presente. Ok, faz frio em maio. Mas foi um pouco, hm, diferente abrir aquela lata tão fofa e encontrar um cachecol ali dentro! Acontece que ele foi dado com tanto carinho que eu mal liguei para o fato de que nunca usei esse tipo de peça. Você notou que passei o inverno inteiro usando-o? O adereço mais fofinho de todos. Só para me lembrar de você.

Hoje, você sabe dos meus livros, das minhas séries e de todos os meus gostos. Sabe dos canais que eu amo, dos que eu não suporto e até aqueles que eu apenas finjo que não assisto. Se alguma música que faz o meu estilo toca na rádio, você já deixa naquela estação. Mas não é pra ficar se achando, hein? Afinal, eu também te conheço muito bem e sei que, se eu encontrar passando um daqueles documentários (sem fim) que sempre dizem que tudo foi criado pelos extraterrestres, nossa, você vai correr para assistir!

E mesmo que eu não goste tanto assim deste tipo de programa, também sei que tirar alguns momentinhos do meu dia para te fazer companhia na sala de televisão vai te arrancar alguns sorrisos do seu rosto. E mesmo sem trocarmos nenhuma palavra a respeito disso, você também saberá que eu me esforcei para assisti-lo inteiro – e sem cochilar. Quando os créditos estiverem na tela, você vai me encarar por uns segundos e propor um passeio legal pra me deixar feliz. Pronto, até nas pequenas diferenças do dia a dia a gente dá um jeito de acertar o passo e entrar em equilíbrio novamente.

Não importa quantos problemas apareçam pela frente: para mim, esta parte da minha vida já está muito mais do que resolvida. Com você, está completa.